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quinta-feira, 19 de abril de 2007

O Cullinan de cada um


Da palavra grega adamas que significa “inconquistável” ou “invencível” surgiu a palavra DIAMANTE, talvez só mesmo uma palavra com significado tão forte pra fazer jus a essa substância tão particular, sui generis, cheia de curiosidades e peculiaridades interessantes.

Os diamantes são formados na sua estrutura apenas por átomos de carbono; o engraçado é que o grafite, também. Engraçado porque mesmo sendo formados pela mesma substância eles possuem propriedades totalmente distintas: o grafite apesar de levemente útil, é barato, feio, facílimo de encontrar e extremamente frágil; por outro lado, o diamante é raríssimo, duro e a pedra preciosa mais bela e cara existente. O motivo: no diamante os átomos de carbono estão, diferentemente do grafite, fortemente ligados entre si. Ou seja, uma sutil diferença produziu tamanha discrepância.

Acredito que com as pessoas que conhecemos na vida ocorre o mesmo. São formadas pelas mesmas estruturas, mas a diferença entre elas muitas vezes é brutal. A imensa maioria seria uma espécie de 'pessoa grafite', enquanto outras, caso dermos a sorte de algum dia encontrar, pessoas especiais, justamente assim como os diamantes...

As nuanças dessa analogia não param por aí, contudo, antes de continuarmos, torna-se oportuno alguns comentários sobre a forma como os diamantes são formados.
Provavelmente vc não deve saber mas, singularmente, os diamantes levam em torno de milhões/bilhões de anos para serem formados. E o mais interessante num local totalmente inóspito: nas profundezas do abscôndito do cerne terrestre, já que para se formar aquelas fortes ligações exigem temperaturas altíssimas (1100-1400°C) e fortes pressões externas produzidas pelo peso dos 180 km de profundidade. Esse processo é tão individual que é mais fácil encontrar duas pessoas com a mesma impressão digital, do que dois diamantes iguais. E tudo isso faz com que ele tenha uma densidade de 3,52 e seja o material mais duro conhecido pelo homem 10 vezes mais que o aço. Ou seja, nada consegue quebrá-lo, tampouco riscá-lo. Absolutamente nada!

Curiosamente, nunca saberíamos da existência deles se não fossem expelidos das profundezas de seu berçário para a superfície através das erupções vulcânicas, por isso o porquê das minas serem localizadas justamente em terras vulcânicas.

Por suas propriedades eles têm uma ampla utilização industrial, como a produção de semicondutores, perfuradores para materiais de dureza elevada, chips potentes, fibras ópticas, dentre outros. Soma-se a isso sua grande RARIDADE e teremos a justificativa o motivo porquê são tão caros. Realmente, inexistem no mundo mais de 30 pedras acima de 100 gramas.

Ademais devido ao elevadíssimo índice de refração (2,42) proporciona sua caracteristica mais marcante: seu brilho adamantino cintilante incomparável, além de um matiz luminoso fascinante quando a luz atravessa seu interior. Impossível não se encantar, não ficar seduzido com essa hipnotizante e reluzente beleza inefável, e não a tôa terem inspirados tantos poetas e pintores, além de serem hoje sinônimo de poder e riqueza, e por isso tão cobiçados pelas mulheres.
Para se ter uma idéia há cerca de um ano, os proprietários da Lets'eng venderam no mercado europeu uma pedra de 215 quilates (apenas 43 gramas!!) que alcançou cerca de R$ 3,5 milhões.

Nem sempre, porém, um diamante maior é sempre mais valioso que outro menor. São avaliados 4 características – os 4 C’s: COLOR (cor), CLARITY (pureza), CARAT (quilates, seu peso) e CUT (lapidação). Sendo os mais raros os mais incolores e TRANSLÚCIDOS, os mais puros sem muitas inclusões (suas impressões digitais), os mais pesados e os que foram trabalhados pelos lapidários mais habilidosos.
Pelo exposto até aqui tento justificar a analogia preludial: vejo pessoas especiais como diamantes. Cheias de qualidades incomparáveis, e porque não dizer que pessoas assim exalam um brilho reluzente. E assim como não existem dois diamantes exatamente iguais, pessoas especiais também não, elas têm suas singularidades. E têm seu valor também por serem raras e extremamente difíceis de encontrar.

Como os diamantes, outrossim, vou além: pessoas especiais muitas vezes não são encontradas na sua forma já pronta para apreciação; em contrapartida, são encontradas, como eles, na forma BRUTA, muitas vezes envoltos por muita lama, sujeira, cheio de impurezas. Ou seja, precisam passar por um longo processo de limpeza e lapidação, para só então ter toda sua beleza e suas qualidades na plenitude.

Durante a vida temos o privilégio de encontrar algumas dessas pessoas especiais, sobre as quais contribuímos um pouco com seu processo de lapidação. No entanto, mesmo dentre essas pessoas especiais existe aquela única que se destaca além das demais. E no caso dos diamantes ele tem nome: CULLINAN.

Em 1902 a mina Premier foi descoberta por Thomas Cullinan em Pretória, na África do Sul. TRÊS anos depois, seu capataz, Frederick Wells, percebeu um raio de luz na lama de uma mina aberta; com seu canivete, ele desenterrou o maior diamante do mundo até hoje. Pesava na sua forma bruta 3.106,75 quilates (0,620k g) –foto A- e passou a ser chamado de diamante Cullinan. Seu processo de lapidação foi confiado a J. Osher que passou 6 meses apenas estudando a pedra e durou anos para finalizá-lo, resultando em nove diamantes grandes, e 96 jóias menores. A pedra maior pesa 530 quilates e leva o nome de "Primeira Estrela da África" – foto B. É considerado o maior diamante já lapidado.

O fato curioso é como ele foi encontrado: não por um minerador, mas um capataz que visitava casualmente a mina. E no exato local onde ele foi encontrado já haviam trabalhado incessantemente centenas de mineradores nos três anos antes. Não apenas uma simples pergunta mudava tudo: “o que é aquilo na parede?”, mas tudo uma questão de percepção, ele conseguiu ver o que os outros não conseguiram.

Acredito que todos aqui esperam na vida encontrar o “seu cullinan”, ou seja AQUELA pessoa a que você pretende dedicar todo o tempo no processo de lapidação.
Muitas vezes passamos a vida procurando ativamente, quando às vezes é no inesperado o momento do encontro. Muitas vezes, ainda, mais importantes do que a busca ativa é saber como procurar, estar bastante atento senão a pessoa que você tanto procura já pode ter passado ao seu lado e você nem ter percebido como aconteceu com os mineradores na mina Premier.

É inegável a necessidade de uma dose de sorte mas é mais importante ter olhos e principalmente o coração sempre atentos para conseguir identificar mesmo através da camada de “lama” as qualidades, os valores e as características que você tanta procura.

Além disso, é preciso muita dedicação para lapidá-la, pois muitas vezes vem imunda, fedendo a ratos e cheias de imperfeições que levaram anos se formando e por isso serão difíceis de corrigir. E paciência e amor para não desanimar com os percalços durante todo esse intricado processo.
E enquanto o encontro com o seu cullinan não é marcado, é importante que cada um se preocupe com seu próprio processo de auto-lapidação, porque como vocês já devem suspeitar um diamante só consegue ser cortado e polido POR outro diamante.

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